Ágora

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Passando-se em Alexandria, inicialmente no ano 391 d.C., o filme tem como personagem central a filósofa, matemática e astrônoma Hipátia (ou Hipácia). Filha de Theon (ou Teão), último diretor conhecido da Biblioteca de Alexandria, Hipátia teve uma atuação destacada em sua área, figurando em domínios considerados masculinos e trabalhando como professora. Passou para a História como tendo sido uma mulher muito bonita e o filme segue essa ideia, estrelando a bela atriz Rachel Weisz no seu papel. Apesar de despertar paixões em alguns de seus alunos, Hipátia recusava qualquer proposta de casamento ou de envolvimento amoroso. Sua energia parecia ser toda voltada aos seus estudos e questões matemáticas e astronômicas, embora a realidade religiosa e social de sua época tenha se atravessado em seu caminho.

O momento histórico do filme remonta ao período em que o cristianismo deixava de ser uma religião perseguida para se tornar uma religião perseguidora. A Biblioteca de Alexandria funcionava junto a um templo pagão conhecido como Serapeum, dedicado aos deus Serápis, uma divindade egípcia que era uma fusão dos deuses Ápis e Osíris. O cristianismo, que recebera liberdade de culto alguns anos antes, aumentava cada vez mais seu número de fiéis, entrando em choque com a religião e cultura pagã. Esses conflitos levaram à destruição do Serapeum e da Biblioteca que ali existia. Alguns anos mais tarde, o alvo passou a ser a própria Hipátia, que representava a cultura pagã e ainda por cima era uma mulher e exercia certa influencia na política local, o que era inadmissível aos líderes cristãos da época. Aparentemente, o filme chegou a enfrentar algumas críticas e dificuldades de distribuição por conta da polêmica envolvendo a imagem dos cristãos e da religião em geral, o que talvez explique sua ausência nos cinemas brasileiros.

Polêmicas à parte, o filme é uma rara oportunidade de ver uma reconstituição do que poderia ter sido a Biblioteca de Alexandria. Não existem muitas certezas em relação à famosa Biblioteca, a maior da Antiguidade. Sua fundação remontaria ao reinado de Ptolomeu I, sucessor de Alexandre e fundador da Dinastia Ptolomaica, que governou o Egito de 305 a 30 a.C. Acredita-se que funcionava junto a Academia (ou Museu) de Alexandria, mas não há unanimidade quanto a sua localização física, se ela ocupava um edifício à parte ou se era um conjunto de estantes nas dependências do próprio Museu. Posteriormente, teria surgido outra biblioteca, localizada junto ao Serapeum e que seria a que aparece no filme “Agora”.

Os livros que constituíam o acervo da Biblioteca eram rolos de papiro. O papiro era o principal suporte de escrita na época, originado a partir de uma planta de mesmo nome e fabricado no Egito, desde cerca de 3.000 a.C. Acredita-se que, em seu apogeu, a Biblioteca chegou a ter cerca de 700.000 rolos de papiro, embora haja discrepâncias quanto a este número, e ele não corresponda o total de obras, pois muitas delas ocupavam mais de um rolo. O autor Luciano Canfora, em seu livro A Biblioteca Desaparecida, fala em 400.000 rolos de obras em diversos rolos e 90.000 rolos de obras em rolo único. O Serapeumguardava cerca de 40.000 rolos. O filme reconstrói com grande beleza a imagem de diversos conjuntos de estantes repletas de rolos de papiro.

Igualmente misteriosa é a história da destruição da Biblioteca. Canfora fala em seu livro de três acontecimentos distintos, em épocas diferentes, que teriam causado o fim da Biblioteca. O primeiro deles remonta aos tempos de Júlio César, em 48 a.C. Conta-se que César estaria sitiado por mar no Palácio Ptolomaico e, para escapar, “ordena que se joguem tochas embebidas em piche sobre os navios prontos para o ataque”. O fogo acabou se espalhando além dos navios e as casas próximas às águas também se incendiaram. Acabou por atingir a zona do porto e edifícios vizinhos onde se encontrariam 40.000 rolos de papiro. Os rolos estariam no porto aguardando transporte para Roma. A Biblioteca de Alexandria, no entanto, continuou existindo, embora a imagem do incêndio causador de sua destruição possa estar associada a este episódio, uma vez que os outros dois foram uma destruição proposital.

O segundo acontecimento é o retratado no filme “Agora”: a destruição do Serapeum. Movendo uma verdadeira guerra à velha cultura e seus santuários, o bispo Teófilo lançou-se ao ataque contra o Serapeum, destruindo-o em 391 d.C., juntamente com a Biblioteca que existia junto a ele. É comovente a sequência do filme na qual aparece Hipátia tentando desesperadamente escolher quais livros salvaria da destruição, enquanto a turba estava prestes a invadir o templo. Não é demais lembrar que ainda estava muito longe de existir algum método de produção em série de livros e que, portanto, a grande maioria daquelas obras eram exemplares únicos, fruto do trabalho de grandes estudiosos da época, e que se perderam para sempre. Carl Sagan, em seu documentário Cosmos, diz que a perda foi incalculável, e menciona, para exemplificar, que existiriam na Biblioteca 123 peças do dramaturgo grego Sófocles, das quais somente 7 chegaram aos nossos dias.

Finalmente, o terceiro e último acontecimento remonta ao século VII. Em 641 d. C., a cidade de Alexandria foi conquistada pelos muçulmanos através do guerreiro Amr ibn al-As. A cidade foi poupada de saques e destruições. No entanto, indagado sobre o destino a ser dado aos livros da Biblioteca, Amr escreve a seu califa Omar pedindo orientações a este respeito. A Biblioteca nesta época já estava muito diferente: os rolos em papiro já davam lugar aos códices (formato semelhante ao livro moderno) de pergaminho. Canfora comenta sobre o tipo de livro que compunha a Biblioteca: “agora predominavam os textos dos pais da Igreja, as atas dos concílios, as ´grandes escrituras` em geral”. Cerca de um mês depois, veio a resposta do califa Omar: “Quanto aos livros que mencionaste, eis a resposta: se seu conteúdo está de acordo com o livro de Alá, podemos dispensá-los, visto que, neste caso, o livro de Alá é mais do que suficiente. Se, pelo contrário, contém algo que não está de acordo com o livro de Alá, não há nenhuma necessidade de conservá-los. Prossegue e os destrói.” Atendendo o desejo do califa, os livros foram distribuídos entre todos os banhos de Alexandria para que fossem usados como combustível das estufas, que chegavam a 4 mil naquela época em toda a cidade. “Conta-se que foram necessários uns seis meses para queimar todo aquele material”.

Voltando ao filme, após a destruição do Serapeum, a história avança alguns anos para mostrar o destino de Hipátia. Antes de seu trágico final, no entanto, vale destacar o processo pelo qual Hipátia desenvolve a hipótese das órbitas elípticas dos planetas. Convencida da perfeição da forma do círculo, Hipátia acredita que a órbita dos corpos celestes descreve este formato. No entanto, isso não explicaria o comportamento irregular e mudanças de tamanho verificados no movimento dos astros. Para explicar esse fenômeno, ela se vale da teoria do astrônomo Ptolomeu que estabelecia os epiciclos, mas essa explicação tampouco parecia ser satisfatória. Hipátia chega a uma encruzilhada e, contrariando seu desejo e preferência, ela abandona a teoria das órbitas circulares e, assim, desenvolve a teoria das órbitas elípticas, que seria confirmada pelo astrônomo Johannes Kepler, séculos mais tarde. O filme é muito feliz em destacar esta mudança de orientação na pesquisa de Hipátia, realçando a diferença entre a visão científica, eternamente questionadora e que não se apega a uma verdade absoluta, e a visão religiosa predominante naquele momento, que exigia a adesão a uma fé e a seus dogmas imutáveis. Ao ser pressionada para aderir à fé cristã, Hipátia se revela incapaz de fazer tal coisa, pois ela precisava questionar, precisava investigar. Assim, ela acaba sendo acusada de heresia e é brutalmente assassinada pelos cristãos em 415 d.C.

Ironicamente, uma das representações mais conhecidas de Hipátia encontra-se hoje justamente no Vaticano, mais especificamente na Stanza della Segnatura, no afresco A Escola de Atenas, pintado pelo artista renascentista Rafael Sanzio, em 1509. Nessa obra, Rafael representa as principais figuras da filosofia grega antiga, nomes como Platão, Aristóteles, Sócrates, Pitágoras, entre muitos outros. É um lugar onde Hipátia certamente merece estar.

Detalhe do afresco “A Escola de Atenas”, de Rafael Sanzio, 1509, Stanza della Segnatura, Museus do Vaticano, Roma

Fonte: https://omundodasnuvens.wordpress.com/2011/03/08/agora-e-a-biblioteca-de-alexandria/

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