Carro de Ferro ou Carro de Plástico?

Física do cotidiano

Nos anos mais recentes, as montadoras de automóveis têm dado preferência às “carcaças” de plástico para finalização dos veículos. Para o consumidor menos informado, essa nova escolha das fábricas pode parecer, apenas, uma estratégia a favor da diminuição dos custos da produção, colocando em risco a segurança dos consumidores. Carros feitos com lataria de plástico, porém, são a opção mais segura e as leis da física estão aí para provar esse fato.

carros

Para entender (e acreditar) nessa premissa, imagine a seguinte situação: um automóvel, numa rodovia, andando numa velocidade de 100 Km/h. O motorista deste automóvel visualiza à sua frente um acidente e precisa frear bruscamente. Se o freio do carro estiver em bom estado, o motorista conseguirá brecar em cerca de três segundos. Durante esse tempo, ele andará cerca de 40 metros. “Essa distância cresce caso o carro esteja andando mais rapidamente, ou seja, se estiver a 150 Km/h, ela irá superar os 100 metros”, explica o docente do Grupo de Física Teórica do Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP), Luiz Nunes de Oliveira.

Imagine, agora, uma nova situação: um carro andando a 100 Km/h (não necessariamente numa rodovia) colide com um poste de cimento. A distância percorrida já não será mais de 40 metros, como na situação anterior, uma vez que o motorista não tem os três segundos para brecar. “A distância máxima que ele terá para percorrer, neste caso, é entre o para-choque do carro e a direção do carro, o que dá, mais ou menos, dois metros”, elucida o docente. “Nessa situação, há uma desaceleração muito grande, mais ou menos 20 vezes maior do que no caso anterior”.

Para entender melhor os danos que podem ser causados por tal acidente, precisamos sair um pouco dos aspectos físicos para entrar nos biológicos. Assim como um carro que, em certas ocasiões, mantém uma velocidade constante, todos os nossos órgãos possuem, também, essa característica. Isto é, há um estado de repouso e uma velocidade constante que cada um dos órgãos mantém no organismo para cumprir suas funções específicas. Quando há uma colisão frontal de um automóvel com qualquer outro objeto (no caso de nossa situação hipotética, um poste de cimento), o corpo humano também sai do repouso de maneira brusca, pressionando toda parte frontal, na qual estão localizados órgãos importantíssimos, como baço, estômago e, inclusive, o cérebro. “Quando uma pessoa pula de um trampolim ou anda de montanha-russa, por exemplo, a sensação é exatamente a mesma, só que ao contrário, ou seja, nosso corpo é acelerado e temos a sensação de que nossos órgãos estão ‘flutuando'”, exemplifica Luiz Nunes. “Já no caso de um acidente, o corpo sofre uma grande desaceleração e esse efeito é 10 ou 20 vezes maior do que no caso de uma montanha-russa, o que pode ocasionar o rompimento de vasos sanguíneos e, inclusive, órgãos. Não é raro o acidentado morrer por hemorragias internas antes de ser socorrido”.

Carro de metal versus carro de plástico

Continuemos na segunda situação, só que a imaginemos de duas diferentes maneiras, agora: na primeira, o carro que colide com o poste é de metal, e na segunda o carro em questão é de plástico. No primeiro caso, por se tratar de um carro de metal, o intervalo de dois metros referido no parágrafo anterior, não irá ocorrer. Isso porque toda força do impacto é dissipada para o motorista e não para o carro, que, por ser de um material muito resistente, transmite quase instantaneamente o impacto para os ocupantes dos bancos dianteiros. Já no segundo caso, o carro, por ser de plástico, irá deformar aos poucos. “O poste ‘entrará’ no carro aos poucos, uma vez que o segundo não é tão resistente. A pessoa, portanto, tem de volta os dois metros para parar, pois o impacto é dissipado pelo carro, dessa vez”, explica Luiz.

De qualquer forma, esse tipo de batida é perigoso, uma vez que colisões frontais tendem a ser fatais. “Mesmo que o motorista e o passageiro estejam usando cinto de segurança, o risco é muito grande, porque eles ainda ficarão sujeitos a uma enorme desaceleração. Se houver airbags, o impacto será amortecido, mas ainda assim há probabilidade apreciável de fatalidade”, acrescenta o docente.

Algumas adequações nos veículos têm sido realizadas com o tempo. Os motores dos carros, anteriormente localizados na traseira (você se lembra do Fusca?), agora são posicionados na frente do carro, pois é necessário algo pesado para retirar todo impacto que iria diretamente para o motorista. “O airbag é baseado nesse princípio, ou seja, de que demorará cerca de 2 centésimos de segundo para que a propagação da colisão chegue ao motorista ou ao passageiro. Esse é o tempo que demora para que ele seja acionado”.

Situações análogas

Mesa_de_sinuca

Para ter uma melhor noção de impacto imaginando situações hipotéticas referentes ao “ferro versus plástico”, só que em menor escala, pense nos jogos de sinuca ou bilhar. O impacto entre as bolas, normalmente feitas de resina, é até maior do que aquele que uma pessoa sofre caso seu automóvel colida num poste. “Essas bolas são feitas com esse material duro para que grandes impactos ocorram, propositalmente. Caso elas fossem feitas de plástico, uma pancada as deformaria imediatamente, o que não serviria para o bilhar”, explica o docente. “No bilhar, queremos exatamente o oposto do que nos carros”.

A dureza de outros materiais, em nosso cotidiano, também é bem-vinda em outras situações. Basta pensarmos, por exemplo, nos martelos que, para cumprirem sua função, precisam ser feitos de ferro. Mas, não há dúvidas de que, para a construção de qualquer veículo automotor, o plástico é muito bem-vindo. E, depois desse esclarecimento, as montadoras poderão ter sua imagem melhorada. Mas, se mesmo assim não tiverem, certamente o leitor terá agora motivos diferentes para pensar dessa forma.

Fonte: http://www.if.sc.usp.br/index.php?option=com_content&view=article&id=2026:carro-de-ferro-versus-carro-de-plastico-fique-com-o-segundo&catid=7:noticias&Itemid=224

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